Contexto: rei do sentido

Ao iniciar o aprendizado do inglês, muitos de meus alunos se preocupam bastante com o vocabulário. E eles estão certos, afinal qualquer idioma é feito de palavras, esses amontoados de rabiscos que seguem uma ordem predefinida e se juntam em infinitas permutações para formar o que chamamos de sentido. Mas notem que o sentido não está nas palavras em si, mas sim em como elas se relacionam com outras palavras. Palavras têm significados, textos têm sentido. Palavras e ideias se relacionam umas com as outras como se fossem um tecido, cujas fibras formam uma trama com padrões muitas vezes complexos, às vezes bonitos, emocionantes, intrigantes. Essa relação é o que dá sentido ao texto. Levando isso em conta, decorar uma lista de palavras e significados, verbos preposicionais (os famosos phrasal verbs) ou mesmo de vocábulos parece um exercício inútil. E é. Decoreba só serve pra passar no vestibular, não funciona na vida real.
contexto
Ao aprender um novo idioma, precisamos entender antes de mais nada que cada idioma é o reflexo de uma visão de mundo, e que portanto muitas coisas podem não ter um paralelo direto com o português. Em línguas diferentes, as coisas funcionam de jeitos diferentes e as interações entre palavras podem tomar rumos surpreendentes. Tomemos o verbo preposicional give up. Se você procurar as palavras individualmente no dicionário, descobrirá que o verbo give pode significar ceder, dar, conceder entre outros significados. A preposição up significa em cima, para cima ou acima. Mas quando juntas, essas palavras adquirem um significado totalmente diferente: give up é desistir, ou abrir mão de algo. A relação ajuda a definir o conteúdo. E muitas vezes o contexto nos ajuda a preencher as lacunas deixadas por palavras que não conhecemos. Isso serve para palavras desconhecidas em inglês, mas fazemos isso todo o tempo também em português.
Quando lemos um texto, não é incomum encontrarmos uma palavra que não conhecemos. O curioso é que na maior parte das vezes não é necessário procurar pela palavra no dicionário, pois o contexto nos ajuda a inferir um significado. E normalmente acertamos. Para ilustrar um pouco melhor, vejam este texto desenvolvido por professores da PUC:

PROBLEMA NA CLAMBA

Naquele dia, depois de plomar, fui ver drão o Zé queria ou não ir comigo lá na clamba. Pensei melhor grulhar-lhe. Mas na hora de grulhar a ficha vi-o passando com a golipesta – então me dei conta de que ele já tinha outro programa. Então resolvi ir no tode. Até chegar na clamba tudo bem. Estacionei o zulpinho bem nacinho, pus a chave no bolso e desci correndo para aproveitar ao chinta aquele sol gostoso e o mar pli sulapente. Não parecia haver nem galpo na clamba. Tirei os grispes, pus a bangoula. Estava pli quieto ali que até me saltipou. Mas esqueci logo das saltipações no prazer de nadar no tode, inclusive tirei a bagoula para ficar mais à vontade. Não sei quanto tempo fiquei nadando, siltando , corriscando, até estopando no mar. Foi no tode depois, na hora de voltar da clamba, que vi que nem os grispes nem a bangoula estavam mais onde eu tinha deixado. O que fazer?

SCOTT, Michael, 1981. Working papers nº 1 Projeto Nacional

Você provavelmente não reconheceu várias das palavras no texto, não é mesmo? E ainda assim, é possível entender esta acontecendo, e até mesmo inferir o significado de muitas, senão todas, as palavras desconhecidas. E não se preocupe, seu domínio do léxico não está falho. O texto é propositadamente cheio de palavras inventadas para mostrar exatamente isso: o contexto ajuda a encontrar o significado de palavras que não conhecemos. Trocando em miúdos: use o que você conhece para descobrir aquilo que ainda não conhece. Use o contexto a seu favor. Além de desenvolver sua técnica, você conseguirá ler mais rápido, já que não precisará ficar parando a toda a hora para procurar novas palavras no dicionário.

Contexto: rei do sentido

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