Pagando pela martelada

Muitos provavelmente conhecem a parábola da martelada ou alguma de suas variações. Diz-se que certo navio realizava importante viagem pelo Atlântico quando de repente suas máquinas pararam. O capitão chamou o mecânico de bordo, que nada resolveu. Então veio um técnico do porto mais próximo, que também não conseguiu solucionar o problema. O capitão, desesperado com os prejuizos causados pelo atraso, mandou buscar o maior especialista em motores de transatlânticos, apesar do preço exorbitante que ele cobrava. Ele chegou, olhou a casa de máquinas, escutou o barulho do vapor, correu os dedos pela tubulação e logo parou diante de uma válvula. Abriu sua valise, retirou um pequeno martelo e deu uma leve martelada. Problema resolvido. E pela sua martelada, cobrou dez mil dólares – muito mais do que o orçamento de qualquer outro mecânico que tentou consertar o navio. O capitão não conseguia entender a razão do valor cobrado, uma vez que a solição do problema foi aparentemente rápida e simples. Questionado, o especialista pacientemente esclarece: “A martelada realmente não vale muito mais de um dolar. É saber onde martelar que vale os outros nove mil novecentos e noventa e nove dólares.”

Sempre vai existir alguém que fará o serviço mais barato.
Sempre vai existir alguém que fará o serviço mais barato.

A discussão sobre o valor do conhecimento e da experiência torna-se ainda mais relevante quando levamos em conta a multiplicação do acesso a ferramentas propiciado pela internet. Em geral, essa democratização tem muito mais efeitos positivos do que negativos. A internet democratizou a produção de conteúdo, possibilitou o sucesso a artistas sem acesso ao mainstream, deu voz ativa ao povo e exigiu maior transparência de empresas e governos.
Porém essa mesma facilidade de acesso acarreta em outro problema: o sobrinho. Não me refiro aqui ao filho do meu irmão, mas ao sobrinho metafórico, aquele familiar ou conhecido que “mexe com essas coisas de internet”, faz rapidinho e quase de graça. Ou então a filha do vizinho do amigo, que desde que voltou do intercâmbio na Austrália está desempregada e precisa dar aulas de inglês pra descolar um troquinho. Na verdade, “o sobrinho” é qualquer pessoa com acesso às ferramentas mas pouca ou nenhuma experiência.
Logicamente o trabalho do iniciante é desejável e necessário, afinal precisa-se adquirir experiência de alguma maneira. Acontece que a diferença está exatamente aí – na experiência. Quando contratamos o “sobrinho” para um trabalho, precisamos ter consciência de que receberemos aquilo pelo que pagamos, de que estamos ajudando a financiar seu aprendizado. O preço mais baixo tem um custo, que normalmente aparece na qualidade do material, serviço ou prazo de entrega.
Quando pagamos por um produto ou serviço, não pagamos apenas a martelada. Pagamos todo o estudo e toda a experiência necessária para que aquela martelada fosse certeira, garantindo que o problema seja solucionado rapidamente e da melhor maneira possível.

Pagando pela martelada

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